terça-feira, 2 de setembro de 2008

O suicídio


O suicídio

A chuva lá fora está intensa. Não ouço nada na rua. Nenhum carro, nenhuma criança. Outra noite em casa... As horas não passam, me sinto perdida em um tempo totalmente parado. Vou até ao banheiro. Olho meu rosto pálido, meus olhos vermelhos de tanta solidão. Observo os comprimidos dentro do armário; tão claros quanto eu. Abro a torneira, escuto o barulho da água caindo dentro da pia. Sinto meu corpo estremecer. Devo estar com frio. Vou até o quarto pegar alguma blusa mais quente. Nesse instante percebo minhas canetas jogadas em cima de um caderno. Lembro que estava escrevendo algo.
A chuva está mais forte. Ligo a TV para ver quaisquer programas e alimentar minha banalidade. Perdi o controle remoto. As luzes se apagam. Um raio corta o céu negro. A energia caiu... Sinto gotas de água perfurar meu crânio. Goteiras. Calço meus chinelos encardidos. Ascendo uma vela que estava guardada na cozinha.
Acho que não tenho filhos...
Aqui dentro está tudo tão gelado! Nenhuma lareira pra aquecer. Ouço meu cachorro roer alguns ossos da sobra do almoço. Nada de som, nada de livros. Vou escovar meus dentes e me obrigar a pensar em algo. Preciso pensar. Alguém está andando na calçada. Ainda chove. Deve ser uma criança, uma mulher ou seu marido. Acho que não sou casada... Vou deitar na cama. Meus olhos piscam a cada segundo que não passa. Daqui do quarto ainda vejo os comprimidos iluminados pela luz da vela.
Insônia. O telefone não toca. Nunca tocou. Percorro minhas mãos em meus seios. Poderiam ser maiores. Meus cabelos longos esparramam-se pelo travesseiro. Nada tem odor. Meus dedos caminham pelo meu umbigo, agora agarram minhas coxas. Parece que eles têm receio do meu sexo. Está tudo escuro. Sem livros. Escuto uma música distante. Algum líquido quente molha o lençol. Não tenho pudor. Tudo penetra. A chuva está amena. Levo minha mão até a boca. Ninguém me liga. A luz voltou. Meu cachorro late. Um carro passa. Vozes lá fora. Parece um casal. Respiração ofegante.
Acho que moro sozinha...
Meu corpo volta ao normal. Não consigo dormir e a noite não acaba. Gota a gota no chão. Gota a gota no chão. Torturante. Meus comprimidos, tão pálidos como meu gozo, me deixaram com os pés tão frios. E imóveis. Nada de música, nada de luz, nada de chuvas. Nenhuma de carta.
Bianca Azenha

Um comentário:

MACELO disse...

Não posso deixar de comentar...ressaltar que voce meu amor é uma pessoa hiper especial!

Parabéns pelos escritos e continue escrevendo sem pudor...

Bjssss do seu amor!

Marcello Moraes