quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Ele conhecia muito bem da morte na teoria: como agir, o que dizer, ter um pouco de frieza e raciocínio lógico. Mas na prática foi outra coisa...


Bianca Azenha

sábado, 10 de outubro de 2009


Os dias tinham cheiro de algodão doce e nuvens frescas. E quando a inocência chegava, desejávamos apenas que os outros também pudessem cheirar esse cheiro. De férias de verão que queríamos que nunca acabassem. Mas que quando se passava uma semana dava uma saudade tão apertada da escola e dos amigos que dividiam os lanches e as risadas na hora do recreio, que fazíamos contagem regressiva para a volta às aulas. No final de semana era sagrado ter bolinhos de chuva mesmo sem chuva. E acordar cedo no sábado só para ver todos os desenhos animados que passavam na televisão e comer aqueles pães de queijo quentinhos feito pela mãe não era esforço algum. Quando chegava o fim da tarde e o sol já estava baixo, o difícil era convercer algum dos adultos a andar de biclicleta ou soltar pipa com a gente..
Bom mesmo era quando os primos estavam reunidos em alguma festa de família e podíamos jogar bola naquela quadra de esportes que ficava ali perto. Mas era na hora de tomar banho que descobrímaos pela dor, os pés ralados, os joelhos todos esfolados e o tampão do dedão do pé que faltava. Brincar de gritar pra ver quem gritava mais alto, ou rodar e rodar pra ver quem ficava sem cair por mais tempo também era uma das preferidas por nós. As brigas também não podiam faltar, a minha casa era mais bonita que a dela e ela insitia que não, ela queria seu cabelo igual ao meu e eu não gostava que ela brincasse com aquelas outras meninas da rua de cima. Só que depois de dez minutos estávamos todos brincando de betty, pique-pega, pique esconde e bandeirinha quase que ao mesmo tempo.
Aí chega a hora do primeiro beijo, do primeiro gole de bebida alcoólica, a primeira poesia e os primeiros tudo. Os primeiros vão acabando, os sucos de groselha vão acabando, chegam os segundos tudo, os restos todos e vêm e tomam lugar quase sem pedir licença. Mas ainda sobram alguns dias com cheiro de terra molhada, dias de brincar de fazer cócegas e por um triz não fazer xixi nas calças, e o dia de gritar tão alto, mas tão alto que chega a faltar a voz e é tão bom...

Bianca Azenha e Ranaíses ou, que seja, duas crianças...

domingo, 20 de setembro de 2009

Aquilo que se chama de capital


As cores, gosto daquelas que parecem de um verão inesgotado. E as chinelas um tanto quanto coloridas calçavam pés que outrora viviam nus. A vontade mesmo era de dar vida àqueles esbranquiçados, àquelas gramas secas com vestígios de garrfas de coca-cola. Derreter cada ponta racionalmente e geometricamente militrada por um arquiteto já velho. Derreter com o fogo de algum isqueiro que pode ser encontrado em bancas de jornais quaisquer. Ou até mesmo gastar cada fósforo de uma caixa que diz ter muito deles com uma única riscada.


Queria beber o mundo e aquela cidade muda de gritos. Mas que tudo ali acontecera, realmente acontecera. E digo e repito com a maior inocência que a sinceridade pode ter. Quase tudo tivera início ali. Como se esquecer dos beijos atrás daqueles prédios engravatados, dos showzinhos alternativos que embalaram noites e dia e manhãs, que depois eram lembrados rigorozamente por uma ressaca infernal no dia seguinte. As várias bandas que diziam ser de rock e que nunca faziam sucesso depois do Renato Russo ter morrido. Tá, um pouco de mentira, mas que não faziam o rock não faziam. E que tudo era vazio, era. A cidade de céu limpo, gramas secas, gargantas secas, garrafas secas.


Mas eu gostava mesmo era de outro lugar. Que com alguns ônibus ou trens podia-se chegar naquela pobre pracinha habitada por vários tipos exóticos e tão comuns. Sofrida pelo tempo, pelo relógio que badalava sempre a cada trinta minutos, e lembrava que já tinham se passado 30 minutos, que, muitas vezes, inúteis. Os velhos do baralho, os bêbados e as crianças que se entreolhavam, ou alguns hippies sentados esperando o que não se devia esperar. Mas muitos mesmo não esperavam por nada e só faziam artesanatos banais para conseguir uns trocados para comprar uma garrafa de Pedra 90 porque, afinal, era a mais barata.


Ali, bem longe da capital respirava uma outra cidade, de cores, formas, buzinas e bares que exalavam suor e verdades. Uma dose, um real. As sinucas baratas, as fotos, as estações. Cidades sem pontas e com outras pontas. Deformações. Aquilo que se poderia arriscar chamando de realidade ou sentimentos ou emoções tudo junto. Eu, claro, continuo preferindo as emoções.



Bianca Azenha

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ana III


FOTO/DESENHO: Bianca Azenha
Não acordava e era difícil saber se era sonho ou pesadelo ou até mesmo realidade. Faltava um pé na cabeça de Ana para um passo definitivo. Andar para frente, ficar ou cair de uma corda que a separava de muitas decisões. Talvez ainda fosse uma criança com medo do escuro, mas o escuro agora era aquela coisa sem vida. Não mais cheio de monstros e fantasmas, quem dera fosse assim, ou talvez ainda seja assim. Pensava em ser o personagem de um livro, pensava como era ser deus, pensava na morte. A cabeça de Ana roncava como o estômago quando com fome. Precisava da vida. Precisava de idéias. Não sentia o sangue bater no coração, estava dormente, o sulco, as veias e artérias. Sentia saudades da época que tinha insônia, aqueles batimentos muito altos, muito. Dormia, dormia. E ainda continuava aleijada, só não se sabia até quando. E Ana andava e Ana mancava. Sentia-se coxa das idéias e sentimentos, se corresse era dor, se parasse, caia. Ana era Ana? Mas eu sei, ela só queria as luzes acesas e um copo d’água ao lado do colchão...
"Ana, seus lábios são labirintos, Ana"
(Engenheiros do Hawai)

Bianca Azenha

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

amar
No ÂMA-go
AMAR-go
Des-ESPERADO
Da paixão

Bianca Azenha





foto:Bianca Azenha

domingo, 9 de agosto de 2009

Muito bêbada...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

RITMO

Olhos nos olhos
colados,
suados,
calados.
E na pele os calafrios.
Na boca,
poliglotas línguas.
Nos sexos,
mãos.
No compasso da música
profunda
inunda,
desnuda.
As unhas cravadas.
Pupilas
Braços, pernas, janelas.
Um suspiro,
o inesperado,
o terno,
o descancarado.
Abraços.
Um sorriso calado.
O quente na cama
profana,
que chama,
engana
o casal de enamorados.
Bianca Azenha

domingo, 26 de julho de 2009

Nossas Reticências

Queria poder te escrever um conto ou um romance romântico, desses que se tem a mocinha e o mocinho. Mas não, o que consigo é vomitar letras cansadas num papel. Papel com gosto de domingo chuvoso e só. Como escrever sobre um amor de Romeu e Julieta se já sinto, aliás, quase não sinto mais Lispector. É uma bossa-velha querendo ser gingada por uma nova, bem casual, bem politizada. É tudo que eu não quero, porém é como agarrar nuvens com as mãos, e quando, de bem fechadas passam a respirar e sentir o vento, enxerga-se que não há mais nada lá. Escapismo, talvez. Aquela coisa de chorar ouvindo Pink Floyd com as luzes apagadas e cigarros acesos. Tudo isso é uma esquisitice sentimental meio psicodélica e teatral. Céu azul, mar azul, ondas que apagam tudo que está escrito. Talvez eu desenhe uma onda gigante para apagar tudo o que foi dito há uma semana atrás. Nosso mundo doce de palavras “eu te amo” ao lado do desespero de frases mal colocadas e sonetos de separação escritos por nossas mãos. Acabou? Não, o amor não parece ser tão frágil assim. E “nosso esgrima de línguas” continua até o momento em que distinguirmos o certo do errado.


Bianca Azenha

quarta-feira, 15 de julho de 2009


Preferi não tomar uísque,
Escolhi a cerveja.
Preferi não dançar a noite inteira.
Escolhi por não tirar os sapatos apertados.
Quero representar num palco escuro,
Sentar e não ser a platéia crítica.
Tomar porres por ter que tomar.
Escolhi o amor mais errado,
O beijo mais salgado de suor.
Entre a terra e o inferno,
Escolhi ser eu atriz, dama, bêbada,
As luzes nos olhos tapar com as mãos.
O crime, a espada de brinquedo,
Escolhi participar.
Preferi o ócio, sedativos, cabeça não aparada.
Roupas de época para um céu grotesco,
Um papel de Hamlet, Capitu, Adão e Eva.
Apontei com meus dedos pálidos.
Troquei a cerveja pelo Uísque com gelo,
Os cigarros por outros.
O palco iluminado, holofotes
Os olhos baixos, vermelhos, opacidade.
Escolhi por fazer sexo no labirinto.
Preferi tuas mãos frias e as minhas quentes,
Tua cama de lamúrias, desejos, ressacas.
Escolhi por tentar amar o personagem principal,
Por atuar e dizer os textos errados,
Por dizer Merda ao invés de Boa Sorte.


Bianca Azenha

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Esse tal de Roque Enrow