sexta-feira, 31 de outubro de 2008

J.

Ela abria as janelas para poder tentar fazer parte da vida “lá fora”. No entanto, sentava-se em seu sofá rasgado. Não se permitia olhar tanto para os desejos profanos de alguns jovens. Sempre no mesmo horário sentava-se à mesa, sozinha. Tomava seu café da manha calada. Comia a metade de um pão com manteiga, preparava um café com leite e cortava algumas frutas. Esparramava-se em seu sofá velho e minúsculo, ligava a televisão para passar o tempo, apenas. Até que se surpreendia com o horário, estava atrasada para o trabalho.

Descia as escadas da sua quitinete, lentamente. As pernas lhe doíam um pouco, de tanto subir e descer. Chegava à parada de ônibus. Para sua sorte ela não perdera sua condução. Joana, sempre com um sorriso sem graça no rosto, limpava casas de família. Hoje era o dia de ir para a casa da dona Cleuda. Uma típica madama de classe média alta. As duas mulheres deixavam-se trocar algumas poucas palavras. A empregada respeitava demasiadamente a patroa. Ela era seu alter-ego nas teorias de Freud. Em seu relógio barato, marcavam-se trinta minutos para chegar ao seu serviço.

Aquele era um dia ensolarado, poucas nuvens, tempo seco, assim como sua pele. Os olhos da mulher pareciam estar mortos, não havia qualquer expressão. Seus dedos moles e calejados repassavam as páginas do folheto do supermercado da esquina. O ônibus estava cheio, as janelas estavam quase todas fechadas. Recendia um cheiro de suor, misturado com a fragrância doce e enjoativa do perfume da garota sentada no banco. Finalmente Joana dera o sinal para o ônibus parar, ela iria descer. Mas ainda teria que andar mais um quarteirão para fazer suas devidas tarefas. O sol queimava seus ombros, porém ela nunca se queixava.

J. sempre entrava pelos fundos da casa. Era encarregada de limpar todos os cômodos e deixar preparado o jantar. Ficaria sozinha o resto da tarde, era rotina. Quando chegava para trabalhar a madama saía para resolver algum assunto qualquer e deixava a jovem “cuidar” de seu lar. Começava outro dia de faxina, a doméstica tirava toda a poeira que se estendia sobre os móveis e sobre sua pele. Quando chegava ao quarto da patroa para limpar, seus olhos reluziam um brilho escondido. O coração palpitava, a mão chegava perto do guarda-roupa, aproximava-se da caixa de lembranças que estava lá dentro. Então Joana sentava-se ali mesmo, no chão. Abria a tampa do objeto de madeira e quando encontrava as preciosas cartas... transportava-se para outro mundo. Aquele em que não existem pecados: transformava-se em escritora, adolescente, mulher e prostituta.

Eram cartas de amor. Ela conhecia cada palavra escrita naqueles papéis. E toda vez que as lia, derramava-se em longos prantos. Talvez por ter a certeza de que nunca se apaixonaria. Não queria correr o risco de perder alguém que se ama, ou tornar-se alguma viúva. Temia. Seu patrão havia morrido antes dela ser sua empregada. Mas o que não sabia é que ela realmente amava um homem. O amava incondicionalmente. Sonhava, alimentava desejos de uma mulher apaixonada. O pesar. Seu amado era o autor das cartas. Ela já havia começado um casamento viúva.

Quando chegava ao fim de todos aqueles textos, procurava um abrigo, precisava lavar louças. J. preparava o jantar para dona Cleuda enquanto pensava no horário para pegar a condução de volta pra sua realidade. Deixava o jantar na mesa, a casa limpa, seu maior amor e saia pela porta dos fundos, assim como entrara e assim como sempre haveria de ser. Juntava os restos dos sorrisos pálidos e quando chegava à sua quitinete, não se admitia pensar no pecado das ruas. Deitava-se em sua cama e lá no fundo ficava feliz por ninguém saber que ela existia.


(Bianca Azenha)

Um comentário:

Abraão Vitoriano de Sousa disse...

incrível o cotiando não se torna chato com suas palavras do lado...rs