quarta-feira, 2 de junho de 2010

Mais uma tentativa e um coração apertado.

Esperava-se que tudo passasse como num sopro, leve, frio e seguro. Mas foi transcedente, traiçoeiro, voraz. A mulher de olhos verdes vazios, buchuda de gorduras e rosto bonito. Eu sentada, procurando, me procurando e achando toda vez você. Carros e mais carros, engarrafamento total. E um barulho irritante, mas quase musical de um vidro batendo numa janela e o refrão era composto pelas businas, um coral de velhos roncando, uma criança chorando, a pipoca insaciável, e mulheres conversando sobre uma amiga da amiga e homens falando de coisas banais. Um só, um lá, nada sofisticado demais. Contemporaneidade. Tudo isso formava o cenário do meu teatro.
O sangue é ralo e sai depressa demais para poder conseguir estancá-lo com um pedaço de pano. A dor causada por nossa vontade de língua e de produzir outra vida era grande, desesperada, às avessas. E apesar de todos os desejos estarem juntos e serem nauseantes, ainda não era nada difícil sorrir e gozar um no outro. Ainda era gostoso cantar músicas bonitas com uma boca num ouvido gelado. Os olhos escutavam com uma atenção encantadora e brilhava tanto quanto chorava.
A mulher buchuda conseguiu sentar. O ônibus quase esvaziou de gente. E eu também desci, pés cansados de um dia inteiro que não acabava de levar tédio para as horas. O sangue escorreu quase grosso, quase cessando. E a cabeça confusa e cheia de buracos que tentavam fazer mais buracos e tentava fazer alguma coisa palpitante ser feliz. E o egoísmo nada frágil de não deixar você me deixar. Quase um fracasso.
Não,
era só vontade de amor mesmo.

2 comentários:

Léo Metallica disse...

Você usa uma narrativa que eu gosto muito. Mais tu adcionou um tom de complexidade precisa ao buscar a realidade com o onírico em uma narrativa visual quase que impossível de não se comparar a flashes de memória, enquanto pensaste dentro do ônibus ao observar a buchuda da mulher.

É crítico e ácido também.

Direto do Rio. Complexando um pouco mais...
Beijão.

Abraão Vitoriano disse...

você é bela
e construindo sentidos
ainda mais
nada em meu peito


beijos,
do menino-homem

fica com Deus!